Mú! (ou sobre a pasteurização das traduções)

cow(Postado originalmente em 31/1/2012 – Adaptado)

Sempre acreditei, e continuo a acreditar, que um dos trunfos do profissional autônomo é poder e saber impor sua marca pessoal ao produto de seu esforço dentro dos parâmetros recebidos de seu cliente. Algo como um marceneiro que recebe a encomenda de um armário, com essas e aquelas medidas, a ser usado para isso e aquilo e que, por um jeito todo seu de usar uma talhadeira ou uma plaina, consegue produzir um móvel com a mesma finalidade de qualquer armário, porém com uma “personalidade” de produção que o torna único e, de preferência, associável a quem o produziu.

Essa identidade entre produto e produtor vale, também, na tradução. Qual é o tradutor experiente, que já anda no mercado há algum tempo, que não tem pelo menos um cliente que lhe seja fiel justamente pelo modo como elabora uma frase, como prepõe ou pospõe adjetivos ou advérbios, ou como hidrata e viça o mais árido e escanifrado dos textos? E vejam bem, não estou falando só do tradutor literário, falo dos não literários principalmente. Acreditem, tem gente por aí que consegue transformar a tradução de um balanço patrimonial ou de um manual de separador de água e óleo em algo agradável de ler. Conheço alguns.

Pois no fazer tradutório, é justamente a identidade entre tradutor e tradução que o uso indiscriminado das ferramentas de tradução automática, principalmente aquelas de uso público, mais ameaça. Por serem voltadas essencialmente para a produção, ferramentas de MT se prestam, e muito bem, ao uso simultâneo por uma multitude de tradutores (aliás, dependem disso), que devem abrir mão de sua personalidade tradutória em função da personalidade da máquina (ou da falta dela) para que o produto final de seu esforço seja considerado bom. Como resultado, minha tradução, a sua e a do colega ali da esquina ficam com a mesma carinha. Ou ficam, pelo menos, muito parecidas. Sendo assim, no dia em que todos nós estivermos usando ferramentas como o Google Translate como motor nossa atividades, o que restará ao cliente para diferenciar a minha tradução da sua, ou daquela do colega ali da esquina?

Você, querido ou querida colega, que traduz profissionalmente como eu, acabou de ter um arrepio na espinha, não foi? Pois é. Se hoje os preços têm tirado nosso, imaginem como será quando, devido a seu uso indiscriminado e cego, promovido irresponsavelmente por muitos (inclusive por aqueles que, por autopreservação, deveriam ser mais cuidadosos), a MT se tornar tão massificada, no pior sentido da palavra, que tudo o que teremos a oferecer aos nossos clientes, diretos ou não, será um preço mais baixo que o concorrente ao lado. Aí sim, será mesmo, para todos os efeitos da tradução profissional, o fim.

Quem me conhece sabe que, em relação às ferramentas de tradução automática, de catastrofista não tenho nada. Ao contrário, vejo-as como oportunidade de novos ares para nossa profissão que, apesar do oba-oba econômico com que andam a cercá-la, como atividade profissional está um tanto combalida. Mas não podemos descuidar. Se formos na conversa dos que somente querem vender ao invés de responsavelmente promover essa nova realidade profissional, ou nos deixarmos seduzir pelo volume que a ferramenta de tradução automática pública é capaz de produzir, caminharemos a passos largos para a pasteurização da tradução. Seremos, de fato, como as vacas. Cada uma produz um leite com sabor peculiar, mas na caixinha, depois da pasteurização, fica tudo aguado mesmo. É certo que, em muitas situações, a pasteurização da tradução é necessária e deve ser buscada. Mas não podemos deixar que venha a ser encarada como norma, nem contribuir para isso com nossa passividade ou omissão.

Cuidem-se, leiam, informem-se, duvidem dos arautos nímbicos que, das nuvens, clamam pelo esforço barato de uma multidão de tradutores obscuros, sem se preocuparem com outra consequência que não seja o número de dígitos no saldo bancário. Façamos a eles e a nós mesmos a pergunta que nossa coleguinha, em outras palavras, faz ali em cima, “o que é que eu levo nisso?”. E na resposta é bom que consideremos não só os valores que podemos ganhar hoje, mas se nossas escolhas permitem que nossa profissão sobreviva, ainda que transformada, e que permaneçamos indivíduos identificáveis, produzindo algo que nos diferencie uns dos outros e reflita o profissional que cada um de nós é.

Vaquinhas? Podemos até ser. Mas de presépio, nunca. Mú procêis!

É duro, mas é gostoso!

queijo-ralado(Postado originalmente em 7/5/2013)

Cliente amiga, empresária de agência, me liga para desabafar seu desalento por causa do que considera má prática crescente dos tradutores, qual seja, a de lançar traduções no GTK e arrumar o resultado final. Esse estado de ânimo entre as agências sérias não é incomum e é justificado, mas não acho correto imputar, como ela o fez, a responsabilidade por esse estado de coisas exclusivamente aos tradutores. Na verdade, estes, como vejo, são de fato os menos culpados pelo embrulho profissional em que os meteram.

Digo os meteram porque se há alguém que deve ser diretamente responsabilizado pela ascensão da tradução pasteurizada é o próprio mercado tomador de traduções e não há nessa afirmação nenhuma ranhetice de espírito de corpo, mas uma simples constatação de fato: quem determina a qualidade de um produto em mercado com oferta maior que demanda não é, nunca, jamais, em nenhum setor, o produtor, mas o comprador. Se os clientes finais de traduções passarem a comprar traduções como compram qualquer outro componente que agregue valor a seu próprio produto ou serviço (sim, boas traduções agregam valor) não haverá GT no mundo que resista ao crivo da qualidade e as ferramentas de MT assumirão, na atividade e no negócio da tradução, o papel que rapinantes insidiosos, sem nenhum compromisso maior com o ofício de traduzir que não seja o lucro financeiro, lhe roubaram.

Claro, nós, tradutores, temos nossa parcela de responsabilidade pela situação presente, mas acho muito difícil que alguém com um ínfimo de vergonha profissional entregue um serviço rasteiro, preparado nos gráceis, pelo prazer de fazê-lo. Se o faz, é porque o império da necessidade é tirano e voraz.

Assim é que enquanto o mercado tomador estiver satisfeito com as traduções de caixinha que recebe, qualquer esforço dos profissionais de tradução para espantar as nuvens negro-esverdeadas dos céus tradutórios será inglório. Eu, desses esforços, já desisti. Prefiro concentrar minhas energias em avançar pelos rincões do mercado (sim, eles existem) onde traduções bem feitas são valorizadas e ferramentas de tradução, sejam de TM ou MT, são tratadas com a deferência que merecem. Tudo bem, o empreendimento é trabalhoso. Algumas coisas, porém, são como certos queijos, precisam ser picadas ou raladas para que revelem o que têm em si de melhor. E sou guloso pacas! “Yummy”!

Qualidade?

Quality I

(Postado originalmente em 23/2/2012)

Esta semana, duas coisas me fizeram pensar no assunto qualidade da tradução. Uma foi um tópico que abri na comunidade Tradutores/Intérpretes, do Facebook, falando sobre como o Lotus SmartSuite e o Wordperfect eram superiores, na época, ao MS Office, mas acabaram superados por este último por estratégias de marketing agressivo e venda casada. Outra foi um vídeo para lá de interessante, de que tomei conhecimento também no Facebook, através do Roney Belhassof, pensador e filósofo cyber-humanista, administrador da i4B (www.i4b.com.br) nas horas vagas e, quando dá tempo, marido da Cláudia Mello Belhassof. No vídeo, um violinista entra em uma estação do metrô de Washington D.C. e, como qualquer artista de rua, começa a tocar seu instrumento. Durante os 45 minutos de sua sessão musical, apenas seis pessoas se dispuseram a parar e prestar atenção à música tocada. Ao final, angariou US$ 32, sem direito a aplausos. Acontece que o artista se chamava Joshua Bell, um dos violinistas mais talentosos de seu país, que dias antes lotara um concerto em Boston com ingressos a US$ 100 por cabeça e fora tocar no metrô somente como parte de um experimento sobre até que ponto a boa música (as peças tocadas eram de Bach) é capaz de desviar a atenção das pessoas de seus afazeres normais. O vídeo pode ser encontrado em http://www.youtube.com/watch?v=hnOPu0_YWhw

Os dois casos deixam lições preciosas para nós, tradutores, especialmente para aqueles que acreditam que a qualidade de suas traduções os manterá imunes ao que acontece hoje em nosso mercado.

O que aconteceu com o Lotus SmartSuite e o Wordperfect no lembra de que há outros fatores além da qualidade que nossos clientes consideram na hora de escolher um produto. No caso desses dois conjuntos de aplicativos, não bastou serem, na maioria dos aspectos, superiores ao MS Office para que permanecessem como primeira escolha dos usuários. Estratégias de venda adotadas pela Microsoft tornaram o uso do Office financeiramente mais vantajoso, terminando por relegar o Lotus SmartSuite e o Wordperfect a nichos e à estagnação.

Já o exemplo do violinista não poderia ser mais claro e didático. Se, para sobreviver, o músico tivesse que oferecer sua virtuosidade e bela música a um público despreparado para elas ou cujo noção de virtude e beleza não alcançasse o que tinha a oferecer, passaria aperto.

Há tempos venho lendo e ouvindo a mesma afirmação de que, no mundo das ferramentas de tradução automática, sempre haverá lugar para a tradução de qualidade, como se a qualidade do que produzimos fosse suficiente para nos defender e proteger de qualquer efeito adverso das ferramentas de tradução automática em nossas vidas profissionais. Não é. Por mais que nós, tradutores, nos esforcemos para imprimir qualidade àquilo que fazemos, de acordo com normas e práticas recomendadas gerais de tradução (é o mínimo que devemos fazer), quem determinará a qualidade do que produzimos é nosso público, que tem suas próprias medidas de boa qualidade, má qualidade e qualidade suficiente. Achar uma maneira de entender e atender parâmetros de qualidade distintos, especialmente no que tange à tradução automática, é fundamental para nossa sobrevivência e isso nem sempre será agradável.

Como os concorrentes do Office, se não acharmos uma maneira de combinar qualidade e preço, feneceremos. Como o violinista virtuoso, se oferecermos qualidade a quem dela não se dá conta, ficaremos à míngua. E se hoje o público quer e anseia pela tradução automática, então, para resolvermos esses dilemas, precisaremos nos entender com essas ferramentas, estabelecer com elas um relacionamento amigável para que, quando exigidos, possamos contar com seus serviços e oferecer ao público traduções com a qualidade que esse público deseja, mesmo não sendo esta, necessariamente, a nossa.

No fim das contas, tradução automática ou não, vamos combinar, qualidade é aliar o que temos a oferecer àquilo que esperam que ofereçamos. Qualquer outra coisa é presunção.

As lições que deixam para nós

Linotipista cubano (médio)(Postado originalmente em 9/1/2012)

Pretendia abrir esta postagem com a imagem de um trambolhão cuja operação ágil foi, durante muito tempo, essencial para a produção da mídia impressa, mas na busca por uma imagem adequada acabei encontrando a figura simpática aí ao lado, com um ar tão boa-praça que chamou minha atenção. Infelizmente, seu nome não aparece identificado na fonte, mas vamos chamá-lo de Luís. O seu Luís milita em profissão sem futuro, já quase extinta, com alguns profissionais que sobrevivem aqui ou ali graças à boa-vontade ou apego de seus empregadores (ou sei lá por qual outro motivo), ou devido às parcas economias dos lugares onde vivem. Seu Luís é um linotipista.

O reinado do linotipo não foi tão longo, durou menos de um século, mas foi fulgurante, principalmente nas gráficas de jornais e revistas semanais, e seus operadores, os bons, eram tratados com respeito e consideração, pois deles dependia a agilidade com que uma publicação chegaria às prensas e, consequentemente, ao seu público.

Ao surgir a impressão em offset, aos linotipistas restou a decisão: adaptarem-se e aprenderem a lidar com os novos meios de produção para continuarem fazendo parte dos parques gráficos em que trabalhavam ou insistirem em sua arte e deixar tudo por conta da sorte. As consequências das opções já são óbvias e discuti-las aqui é perda de tempo e desperdício de palavras. O importante é aprender com a lição que eles, os linotipistas, deixaram para nós, tradutores. É evidente que a encruzilhada profissional em que nos encontramos é bem mais “meandrosa” que aquela por onde passou a classe profissional de seu Luís, mas sua essência é a mesma: ou aprendemos novas técnicas, nos adaptamos e nos oferecemos ativamente ao mercado como profissionais renovados ou ficamos a depender, passivos, da necessidade de nichos cada vez menores ou das graças de terceiros. A escolha é de cada um. A minha, já fiz.

Uma postagem um tanto grande, mas necessária

Lectures(Postado originalmente em 6/1/2012)

O que vem a seguir é um textículo que preparei para o congresso da Abrates em Porto Alegre, em 2010. A postagem ficou um pouco grande, reconheço, mas achei necessário por o texto aqui, por representar, em linhas gerais e bem abrangentes, o que penso. Não alterei nenhuma linha do trabalho originalmente entregue. Vamos a ele.

O Traduzir e a Tradução de Máquina:  Mercado, Ética e Expropriação de Conteúdo On-line.

Introdução

Este trabalho não pretende discutir as sendas e meandros da tradução de máquina como técnica, nem mesmo o interesse que desperta, como ciência, naqueles que discutem sua relação com os objetos da linguística tradicional, da neurolinguística ou da ciência da computação. Trata-se, apenas, de uma organização de ideias sobre atenções e responsabilidades, principalmente as de natureza ética, mercadológica e comercial, que cada tradutor profissional deve considerar ao lidar com questões envolvendo o uso ou não de ferramentas de tradução de máquina, especialmente aquelas no formato on-line.

Tampouco pretende este trabalho ser professoral, está longe disso. Sua intenção é chamar a atenção para questões que, na opinião de seu autor, são fundamentais e estão sendo deixadas de lado por aqueles que renegam ou lidam mal com a realidade da tradução de máquina, seja tratando-a como algo “para o futuro” ou usando-a descuidadamente em sua forma on-line na pretensão de agilizar suas atividades.

Uma realidade a ser entendida

Um pouco de história

Quase todas as atividades profissionais, pelo menos aquelas que gratificam o bolso e o espírito, têm sua cota de arte e técnica e com a tradução acontece o mesmo. Apesar de sua característica de atividade quase artesanal, a tradução desempenha, hoje mais que nunca, papel fundamental nas práticas de mercado globais e, por mercado, entenda-se comércio, em todos os seus níveis e com todas as suas exigências e interesses. Sendo assim, e sendo o mercado eminentemente prático em suas pretensões, é consequente que a evolução das técnicas e da tecnologia de tradução seja ditada principalmente pelo que o mercado exige da tradução, isto é, que seja ágil, precisa e de baixo custo – exigências feitas não necessariamente nessa ordem, mas feitas sempre.

Ao ser apresentada ao mundo, ainda incipiente como tecnologia, em meados dos anos de 1950 – embora a concretização de seu conceito já fosse buscada por pesquisadores havia dois ou três séculos –, a tradução de máquina veio como solução para atender, no curto prazo, essas três exigências. O curto prazo, todavia, se alongou, já que ferramentas de MT – Machine Translation, vamos chamar a técnica assim, por ser um padrão e por economia de caracteres – mostraram-se por demais brutas e de produção custosa. Custo, aliás, talvez tenha sido o fator que mais retardou a evolução da MT, já que o mercado nada globalizado daqueles primeiros tempos achou desnecessário investir em algo para que não via muita utilidade em termos de retornos comerciais. A MT ficou restrita, portanto, e por bastante tempo, ao âmbito das universidades, dos institutos de pesquisa e de determinadas entidades governamentais, notadamente as de informação – ou de “inteligência”, como querem alguns.

A partir de meados dos anos de 1980, com a evolução do mercado mundial em direção à globalização, o interesse pela MT se reacendeu. Investimentos foram e estão sendo feitos para que ferramentas de tradução automática se tornem viáveis e práticas o mais depressa possível, já que, num mundo cuja economia depende, entre outras coisas igualmente importantes, da fluência econômica de um mercado internacionalizado, fluência de comunicação é essencial, pois, se informação é ouro, falta de comunicação é entrave ao lucro.

Um pouco de hoje

Desde que passou a ser considerada, primeiro, importante e, depois, essencial para a fluência da economia mundial, a tradução e seus profissionais se tornaram objeto de pressões cada vez maiores e mais frequentes por produtividade. Nesse contexto de premência, o uso de ferramentas computacionais pelo tradutor para o exercício de seu ofício tornou-se fundamental.

As ferramentas computacionais de auxílio à tradução, ou ferramentas de CAT – Computer Aided Translation – como são comumente conhecidas, foram inicialmente recebidas com alguma desconfiança e resistência, mas hoje são indispensáveis para que os tomadores de serviços de tradução – nossos clientes – tenham suas necessidades satisfeitas e os fornecedores de serviços de tradução – nós, tradutores – permaneçam atraentes e competitivos. As ferramentas de memória de tradução, ou TM – Translation Memory, superaram rapidamente um período inicial de descrença e hoje são populares. Já as ferramentas de tradução de máquina, ou MT – Machine Translation, todavia, embora sendo objeto de desejo do mercado tomador, seguem um caminho menos ágil para ganhar os “corações e mentes” dos profissionais de tradução, seja pelas dificuldades de desenvolvimento e emprego que lhes são inerentes, seja pela resistência que a MT encontra entre nós, por ser vista como algo que nos substituirá e relegará ao limbo.

A lentidão da caminhada das ferramentas de MT, a que nos referimos anteriormente, passa para muitos a impressão de que seu emprego é algo para o futuro. Quem pensa assim, engana-se. A tradução de máquina já é realidade e afeta nossa vida profissional hoje. Algumas grandes empresas, como a Xerox, e entidades políticas de ingerência global, como a União Europeia, dedicam esforços e fundos consideráveis à criação de um ambiente produtivo e lucrativo para as MT. Mesmo em níveis menores, como o das agências de tradução, já há procura de profissionais interessados em trabalhar como editores de produtos de tradução de máquina e essa procura se intensifica ano a ano. A caminhada das MT é lenta, sim, mas inexorável, e o crescimento constante de sua presença entre nós é, também, um fato.

Isto posto, como lidar, então, com essa realidade? Na opinião de alguns, inclusive deste autor, a melhor maneira de fazê-lo é tratar as ferramentas de MT como o que são, uma evolução de nosso ofício e uma oportunidade para que nos transformemos em profissionais renovados e, a bem da verdade, diferentes. Entretanto, como toda técnica “nova”, o uso das MT implica cuidados de diversas naturezas, sendo eles profissionais, éticos e comerciais, e que não vêm recebendo a atenção que merecem.

Os cuidados que a realidade da MT implica

Embora a MT como tecnologia de tradução seja presente e inescapável, isso não significa que não tenhamos que lidar com ela de modo consciente e atento ao que seu uso implica. O crescente interesse comercial na tecnologia, tanto por parte de tomadores quanto de fornecedores de tradução, pode fazer com que nós, tradutores, deixemos de lado questões importantes não só do ponto de vista do mercado como do próprio futuro de nossa profissão.

Cuidados profissionais

É verdade que o uso da MT pode ser de grande ajuda para que os tradutores façam frente aos enormes desafios de prazo e produtividade que sua clientela impõe. No entanto, o uso indiscriminado e desatento dessas ferramentas, pode, no curto prazo, ser mais danoso para nossa profissão do que a ferramenta em si, já que o mercado – que se interessa por resultados, não pela técnica – poderia entender esse procedimento como um sinal de que, já que quem traduz é a máquina, a intervenção humana, seja de um tradutor ou de um editor, é mínima e, portanto dispensável.

Cuidados éticos

Entre outros cuidados a serem postos em prática, é preciso lembrar que o uso de ferramentas de CAT, não só MT mas também TM, promove a geração de grandes bases de dados de informações, com uma porção significativa originada de fontes cujos interesses são conflitantes. Assim, o uso de conteúdos gerados por essas fontes deve receber atenção escrupulosa para que não resvale para a divulgação de informações de natureza técnica ou comercial sigilosa, em prejuízo de todas as partes envolvidas em um projeto de tradução.

Cuidados comerciais

Impressiona que, apesar de todas as fontes de informação disponíveis e todos os indicativos do mercado em que circulamos, ainda haja tradutores que tratem a tradução como trabalho de artesão, quase um sacerdócio. Muito ao contrário. Precisamos lembrar sempre que o setor de tradução e localização movimenta cifras significativas, da casa dos bilhões de dólares, e vem experimentando crescimento contínuo ano após ano, crescimento que nem mesmo a crise econômica, que se abateu sobre o mundo em tempos recentes, interrompeu. Com isso, é natural que tenha atraído a atenção de grandes empreendimentos, interessados em auferir uma parte desses bilhões. O que não é natural, contudo, é que haja tantos tradutores dispostos a ajudá-los nesse intento, de graça e em prejuízo de sua própria atividade. Cada vez que um tradutor usa uma ferramenta de tradução on-line, seja de MT ou TM (Google Translator Kit, Babel Fish, e congêneres), está abastecendo uma base de dados de terceiros sobre a qual não tem o mínimo controle, de cujos direitos sobre conteúdo abriu mão graciosamente (vide a EULA do Google) e que fatalmente virá a ser transformada em um produto posto à disposição de um mercado ansioso por reduzir custos. Além disso, o uso de ferramentas de tradução on-line representa não somente expropriação de conteúdo, mas a prática de crowdsourcing vil, que não só faz uso do trabalho gracioso de tradutores, como impede que profissionais de tradução, revisão e edição participem justamente de um processo e sejam devidamente renumerados por isso. Alie-se isso aos efeitos comerciais da mera suspeita de violação de ética enleada no uso de MTs on-line e teremos um quadro nada auspicioso para a atividade de traduzir.

Pelo visto, é, portanto, crucial que cada profissional de tradução analise cuidadosamente sua opção de usar ferramentas de CAT on-line como auxílio de produção em detrimento do investimento em ferramentas off-line que poderiam, estas sim, beneficiar seu trabalho no médio prazo e ajudá-lo em um momento crítico profissional de transição.

Conclusão

 Apesar de vista como ameaçadora por muitos, a tecnologia de Tradução de Máquina, longe de representar um perigo, é uma evolução que deve ser bem-vinda na vida de quem lida com a transposição de documentos entre idiomas, já que, para permanecerem no mercado, tradutores — então mais “post-editors” que tradutores — precisarão aprimorar seus conhecimentos das línguas e das técnicas com que trabalham, o que resultará, no médio prazo, em produtos de mais qualidade oferecidos ao mercado consumidor de traduções.

Contudo, o uso cada vez mais disseminado e indiscriminado das ferramentas de tradução on-line entre tradutores, além de reduzir notadamente a qualidade dos trabalhos oferecidos ao mercado, aumenta o preconceito contra novas tecnologias e técnicas de tradução — principalmente aquelas que envolvem tradução de máquina — e acelera anormalmente o processo de substituição dos tradutores humanos por “tradutores virtuais” por expropriação de conteúdo, daí ser imperiosa uma discussão do uso de ferramentas on-line de tradução, suas responsabilidades e consequências intrínsecas e do que realmente representam para o futuro (ou não) de nossa profissão.

O assunto é a relação entre tradutor e máquina. Vamos encarar?

professor_cyborg

(Postado originalmente em 3/1/2013)

Em 2001, quando tive meu primeiro contato com uma ferramenta de memória de tradução, ou de CAT (Computer Aided Translation), fiquei encantado com aquela coisa maravilhosa que tornaria meu trabalho tão mais fácil e mais produtivo. Contudo, o que mais ouvi na época foram comentários categóricos como “traduções feitas com isso são uma merda”, ou “daqui a pouco, isso acabará com nossa profissão”. Curiosamente, são os mesmos comentários que ouço agora sobre a tradução automática (ou de máquina, como preferem alguns, inclusive eu, mas desde já abro mão da preferência em prol daquela que parecer ser a dos colegas em geral).

 A introdução das ferramentas de CAT modificou profundamente o modo de trabalhar de toda a nossa categoria profissional, para o bem e para o mal. Ser apenas bom linguista e rápido na digitação (ou datilografia, as IBM e Olivetti resistiam) já não bastava e ser proficiente em teclas, atalhos, menus e administração de terminologias se tornou essencial. Quem se adaptou, prosperou. Quem não o fez, foi parar em nichos, fossem os de mercado, para sobrexistir, ou da parede de algum campo santo, para descansar em paz. Para mim, não há a menor dúvida de que algo semelhante está se dando já há algum tempo com a tradução automática ou MT (Machine Translation) e é sobre isso que pretendo conversar doravante com vocês.

 Mas não só sobre isso. Conversaremos também sobre outras ferramentas auxiliares que ainda são pouco conhecidas ou que causam muita confusão no meio tradutório. Afinal, todo mundo conhece pelo menos um tradutor que ainda confunde OCR com despedefador, não é mesmo?

A propósito, o uso do termo “conversar” ali em cima é literal, quer dizer, se me deixarem aqui falando sozinho, vai virar monólogo, que é coisa chata pra chuchu e que sem camarão junto, não presta.

Isto posto, vamos nessa. Onde vai dar, vocês verão, só depende de nós.

PS: não percam tempo procurando “sobrexistir” no dicionário, é cunho meu. Faço muito dessas coisas, relevem.